33 anos
É uma vida!

O terreiro árido, povoado apenas de terra rachada e espinhos de joá reflete o sol inclemente da manhã. Dentro do barraco de taipa de pilão as crianças brincam no chão de terra. O suor desce pelo rosto e só as moscas teimosas sentem-se confortáveis.
O rincão do norte da Bahia, quase Piauí já tem o nome de Boca do Joá. A fazenda largada pela família do Coronel Justiniano há muito tempo, hoje é habitada apenas pela família do Zé de Enoque. Sertanejo sofrido, rosto marcado, secas sem conta já atravessou. Mulher morrida e dez filhos prá criar.
Maria Justina a mais velha, onze anos. Abaixo dela, uma escadinha. A caçula de ano e meio. Triste vida. Seca. Miséria e fome. Um rádio distante toca uma música de Luis Gonzaga. Deve ser o rádio do carro de Zé Simão. Outro som, por ali não há.
Maria Justa, que é como o pai lhe chama sai no terreiro prá ver de onde vem o som. Um carro velho parado lá distante na entrada da porteira quebrada mostra quem chega. É Zé Simão sim, aquele velho nojento.
A menina apanha uma lata com água suja do barreiro e corre prá dentro. Esconde-se no canto. Não gosta daquele homem. Da última vez que veio ficou bolinando seus peitos. Doeu muito e ele não parava de espremer entre os dedos o bico miúdo. E os olhos, então? E o calor que lhe subiu pelas pernas e foi parar na boca do estômago vazio?.Vazio de fome, de saudades da mãe que se foi há pouco tempo. Ela chorou muito nesse dia. Não entendeu direito a conversa do pai com o Zé Simão. Entendeu só que o vizinho dizia pro pai por preço que outro dia voltava. Não teve coragem de perguntar ao pai do que se tratava. Não entrava em conversa de adulto. Ficou sem saber.
Agora aquele homem nojento estava ali de volta. Ela não sabe o que é, mas sente medo e um negócio estranho quando vê ele se aproximando da entrada da casa. Umas galinhas magricelas correm pelo chão quente e vão se abrigar dentro da casa denunciando a menina que se encolhia acantoada.
--ô de casa? Pergunta o vozeirão do homem que fede a bode na porta
Maria Justa fica quietinha como a querer dizer que não tem ninguém em casa. Mas os irmãos pequenos doidos por novidades correm à porta e já se amontoam junto às pernas do homem que tampa toda a passagem com seu corpo.
Seus olhos assustados de bugre fugidio encontra os do homem ali à frente.
--Não escutou chamar, não sua bugrinha fedorenta? É o homem que fede a bode falando prá ela enquanto corre os olhos pela casa inquiridor.
--Onde está o pai? Volta a perguntar.
A menina assustada se cala, quer correr, quer gritar. Nenhum som sai de sua boca. Travada. Seca.
--Diacho de bugrinha abestada, resmunga o Fedido.
Texto de VALTER FERRAZ
Uma escadinha.


E agora?
Noite dessas, cheguei do trabalho e encontrei meu filho do meio decepcionado.
Em voz baixa, parecendo outra pessoa – seu tom de voz é quase um grito – me puxou pra um canto e, quase chorando, segredou:
– Mãe, lembra quando eu te contei que minha classe ia ler seu livro? O Mundo é pra ser voado, lembra? Não tem quase ninguém gostando.
– Não?
– Só o Caio. Logo ele, que não é tão meu amigo...
Tentei dizer-lhe que livros costumam ser como pessoas ou coisas. Uns gostam de uns, ou umas; outros de outros, ou outras. Há até quem não goste de nada, ou de ninguém.
– Mas de futebol e de corrida de carro todo mundo gosta, né, mãe?
– Nem sempre, filho. Você não vê aqui em casa? A gente sempre vai ao futebol, mas você nunca me viu numa corrida de Fórmula Um...
– Isso é porque você não é da minha idade, mãe. Se fosse, gostava.
Quase lhe disse, então, que a idade talvez fosse a causa do desencontro autor-leitor.
Não seria cedo demais para ler a história da mudança de uma família de Belo Horizonte para São Paulo? Eles perceberiam, além do emaranhado de móveis e caixas transportado pelo caminhão, a complexidade de emoções e ternuras que só o coração pode guardar e transportar?
Não lhe disse nada. Afinal, quem é que sabe a hora, o momento e a idade para se ler um livro? Além do mais, o Caio não estava gostando?
Não havendo milagre capaz de transformar em legível o que os queridos colegas haviam qualificado de chato, horroroso, sabe-se lá mais o quê, mudei de tática. Convidei-o, e o irmão mais novo, para uma sopa.
Nem virou o prato pra cima. O irmão perguntou se ele estava com alguma dor.
– Muito pior – disse. – Você acredita que meus colegas não estão gostando do livro da mãe?
– E você acredita nisso, seu bobo? Eles só querem te encher o saco!