Isso aqui é só um aperitivo:
Quando seus dedinhos grossos conseguem finalmente erguer a tampa da caixa, quase sem respirar grita É uma menina! Ganhei de presente uma menina! E se desconcerta, porque os adultos em volta riem, e detesta que riam dela. Como assim boneca, se as suas bonecas são pequenas e moles, de pano, só a cara têm de louça, seus grandes olhos pintados não se mexem, mas esta... Ah, esta dorme e acorda, acorda e dorme, esta tem cabelos cacheados de fada — a menina sente incontrolável arrepio de satisfação, ao tocar os cabelos da boneca —, esta mexe os braços pra cima e pra baixo, veja! O tio lhe mostra que a boneca... anda como eu! Usa batom e rouge e veste um vestido cor de rosa de festa e um chapéu de festa e sapatos e meias rendadas de festa tão lindos como eu nunca tive nem nunca vou ter na vida.Texto completo
aqui:
Janaína escreve assim, lindamente. Usa as palavras com maestria. Faz das palavras, um conjunto de coisas que nos dá arrepios.
É a competência para escrever.
Não tenho esse dom, mas o texto dela me lembrou a minha história.
Também tive uma boneca de louça. A única boneca que ganhei de minha mãe, na minha vida. Nunca, antes, nem depois ganhei outra.
Minha mãe viajou do interior de S Paulo, para Aparecida do Norte, como fazia, todos os anos.
Neste ano, eu fiquei, e como prêmio, ganhei uma boneca. Ela era linda, quase do meu tamanho, e todinha de louça.
Ninguém do meu convívio, tinha uma boneca tão grande e tão bonita.
Era um sonho, sim, um sonho, na verdade nunca sonhado.
Jamais imaginei ter uma boneca como aquela.
Tinha uma prima, que era um pouco minha irmã.
Tanto lá na casa dela, como na minha, brincávamos, horas e horas.
E eu sempre agarradinha com minha boneca.
Um dia, deixei a boneca lá na casa dela, e alguns dias depois, quando voltei, veio a notícia.
Minha tia, disse assim que cheguei, que minha boneca, guardada em cima do guarda roupas, tinha se "espatifado" no chão.
Senti um grande arrepio.
Não tinha conserto, ela era de louça, e não tinha remendo no mundo que me devolvesse a boneca tão sonhada.
Tia Luzia, foi além.
Me disse:
Ninguém aqui teve "curpa". A "curpa" foi sua mesmo. Quem mandou você deixar aqui, porque não levou para sua casa?
E eu fiquei ali, quieta, engolindo em seco, a primeira grande perda da minha vida.
Esses dias, fazendo uma das minhas visitas lá na Janaína, me deparei com um post lindo, que parecia minha própria história.
Não sei escrever como ela, mas tive de volta, todas as lembranças, e vivi de novo, todos os momentos. Os de alegria, em ter minha boneca, o momento que ganhei meu melhor e único presente, e também a dor da perda.
Quem me conhece, já sabe que não me lamento de nada que não tive, e nada disso, me faz mal lembrar, pelo contrário, acho que toda minha vida, tudo que já vivi, só me serviram de estímulo para valorizar aquilo que posso ter.
Apenas contei, porque o post dela
aqui, é lindo e vale a pena ser lido na íntegra.
Vai
lá.